Sobre o individual, o coletivo e malas

Quando o tsunami atingiu Fukushima, meu pai já morava no Japão e estava próximo de voltar ao Brasil para passar um temporada por aqui.

Foi quando ele me ligou, avisando que não viria mais.

– Ah, não? Por quê? – perguntei, curioso.

– Porque preciso ficar. – ele respondeu.

– O que houve? – insisti.

– O tsunami. Preciso ajudar a reconstruir o país.

Fiquei em silêncio por uns segundos.

Depois, disse a ele que tudo bem.

E desliguei.

Diferente de minha mãe, meu pai não é japonês de nascença: ele é de Guararapes, uma cidade do interior de São Paulo de trinta e poucos mil habitantes, conhecida pela agropecuária, por ser a cidade natal do Nelson Rubens e por ter recebido imigrantes japoneses no século XX.

Mas alguns anos morando no Japão foram o suficiente para ter desenvolvido nele um senso de coletivo quase inalcançável aos brasileiros, especialmente das classes média e alta (sim, os brasileiros mais pobres estão mais habituados a se ajudarem em situações de tragédia natural, mesmo com menos recursos).

É esse mesmo senso de coletivo que faz com que seja natural crianças se revezarem na limpeza de suas próprias salas de aula e banheiros nas escolas, sem precisar de nenhuma abordagem Waldorf.

Ou de coletar o lixo nos estádios ao final de um show ou de um jogo de futebol.

Para nós, brasileiros, limpar banheiros públicos e coletar lixo fora de casa é trabalho de faxineiro ou de algum tipo de profissional “menos qualificado”.

Isso acaba nos levando a códigos que subqualificam esse profissional também como ser humano: elevadores de serviço, uniformes de empregado e todo aquele conjunto de regras ainda presentes em clubes de golfe e condomínios de luxo.

Tudo isso para contar que, hoje, presenciei uma situação que me deixou triste por viver entre brasileiros – pois senti falta daquilo que nunca tive aqui: o tal senso de coletivo dos japoneses.

(Abre parênteses.

Veja: eu sou brasileiro. Nipo-brasileiro, é verdade, com sangue japonês. Mas com boa parte do que chamamos de “alma brasileira”. É no Brasil que escolhi viver (ao menos enquanto houver um mínimo de estado democrático). É aqui que tenho minha família e a esmagadora maioria de meus amigos – e também, ora bolas, de inimigos. E, sim, sou um crítico ferrenho das escrotices da cultura japonesa, sobretudo o machismo – quem me segue já leu sobre isso algumas vezes. Dito isso, sigamos.

Fecha parênteses.)

Foi um episódio bobo na área de embarque do aeroporto de Confins, esperando o vôo de volta para São Paulo.

A comissária da companhia aérea pediu gentilmente que os passageiros despachassem suas bagagens de mão, porque a cabine estava com muito peso.

Sem nenhum custo, ali mesmo, na porta da aeronave.

O motivo: caso o peso da cabine extrapolasse, a inspeção seria mais demorada.

Acontece que a tripulação estava perto do limite de tempo de vôo.

Ou seja: se o tempo em solo demorasse demais, o vôo acabaria sendo cancelado – e todos ficaríamos presos em Belo Horizonte.

(Neste momento, especialistas em aeroportos, aeronaves e afins terão diversas objeções à história. Por favor, poupem seus esforços: isso não tem a menor importância em relação ao argumento deste texto. Obrigado.)

Enfim: apesar do gentil pedido da comissária, ninguém se moveu.

Zero.

Estavam todos ocupados demais com suas vidas.

Eu só observei, sentado, pois minha mala já tinha sido despachada no checkin.

A comissária repetiu o pedido:

– Peço gentilmente que despachem suas bagagens de mão, para que não corramos o risco de cancelamento do vôo. O despacho não será cobrado. Mochilas e bolsas não têm a necessidade de serem despachadas. Agradecemos a colaboração.

Desta vez, uma pessoa foi até lá e deixou sua mala de rodinhas.

E só.

Eu perdi minha paciência: me levantei, fui até a fila e abordei, sorridente, um grupo de pessoas com malas.

– Oi. Vocês ouviram a comissária? Ouviram que, se vocês não despacharem suas malas, a gente corre o risco de ficar preso em BH?

Um deles olhou diretamente em meus olhos, atônito, e respondeu:

– Eu paguei caro pela passagem! – como se o preço da passagem tivesse algo a ver com tudo aquilo.

Uma delas, mais tímida, falou:

– Estou no meu direito de levar minha bagagem de mão comigo!

Um terceiro veio com o argumento mais sincero e irritante:

– Mas daí vou ter que esperar minha mala na esteira e tenho pressa!

Eu mantive a calma, apesar da vontade de socar os três na boca:

– Vocês têm razão. Mas vejam: agora, precisamos da colaboração de todos em prol de um objetivo comum: ir pra casa. Faz sentido?

Eles se entreolharam, mas não estavam convencidos.

Duas pessoas que estavam ao redor da conversa resolveram despachar suas bagagens – mas a maioria voltou a checar seus celulares.

Voltei a me sentar.

Afinal, algumas brigas valem a pena.

Outras… Bem, outras eu deixo para as companhias aéreas.

No final, a comissária-chefe liberou o embarque e convenceu algumas pessoas na entrada da aeronave a despacharem suas preciosas malas – o suficiente para seguirmos viagem sem riscos.

Nesse momento, eu me lembrei dos japoneses.

E dos argumentos dos três com quem tentei dialogar.

“Eu paguei caro pela passagem.”

“Eu estou no meu direito.”

“Eu vou ter que esperar na esteira.”

Eu.

Eu.

Eu.

Tudo sobre o interesse individual estar acima do coletivo.

Não tinha mesmo como dar certo.

E resolvi escrever este texto, dentro do avião mesmo.

Só um desabafo.

Não por este episódio bobo de aeroporto, claro.

Mas sim pelo desejo de ver esse senso de coletivo um dia ser despertado entre nós.

*

Vamos pousar, o comissário pediu que eu feche o laptop.

Nunca ouvi falar de um avião ter caído por causa de um laptop.

Mas sabe por que essa política existe?

Porque, se for permitido que um fique de laptop aberto, todos poderão.

Daí, vira zona – imagine dezenas de laptops voando pela cabine no procedimento de decolagem ou pouso.

Ou seja: é pelo coletivo.

3 comentários

  1. Compartilho muito do seu ponto de vista Ken.
    Assim como você, também sou descendente de japoneses, e também sinto que para nós brasileiros nos falta esse senso de coletivo.
    Óbvio que o Japão também tem seus problemas, um deles muito bem colocado por você, o machismo. Mas algo que é respeitável neles é exatamente o senso de colaboração. Colocar o “nos” na frente do “eu”.
    O Japão tem índices de criminalidade baixo não somente porque a desigualdade social é menor, mas principalmente porque eles são educados desde pequenos a não fazer mal aos outros.
    Obrigado por compartilhar sua opinião conosco, e parabéns por seus trabalhos.
    Abraços.

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