47 e contando

Resolvi contar: a apresentação de ontem (4 de setembro) na F.biz foi a de número 47 da pesquisa sobre assédio no mercado de comunicação realizada pelo Grupo de Planejamento – 48 se considerarmos que foram duas sessões na redação do jornal Meio&Mensagem.

(A propósito: a F.biz está realizando um trabalho sólido de combate ao assédio: se você é C-Level de agência e se importa com seus funcionários, devia conhecer.)

A primeira apresentação foi em 15/11/2017.

Desde então, tem sido uma peregrinação – mas o Grupo de Planejamento só vai onde é convidado.

Exceto por uma agência de Curitiba, que bancou as passagens, todas as apresentações foram em agências de São Paulo.

Nenhum convite de agências do Rio de Janeiro, de Belo Horizonte ou de Porto Alegre, por exemplo.

Mesmo em São Paulo, algumas das maiores agências do ranking brasileiro sequer entraram em contato pra agendar – elas sabem bem quem são.

Mas não foram apenas agências: apresentamos também na ABAP, na Fenapro, na AMCHAM e na APP Campinas.

Entre as principais faculdades de comunicação, apenas duas priorizaram o tema até o momento: a FAAP e a Metodista.

E, por enquanto, dois anunciantes: Ambev e Avon.

Para a Ana Cortat, a Lara Thomazini e eu, foram, até agora, 42 semanas, sendo 2 a 4 horas semanais dedicadas ao projeto – todas voluntárias, sem remuneração.

Algumas dessas semanas foram desoladoras; outras, cheias de esperança.

Foram 42 semanas de apoios e críticas.

Foram 42 semanas de “conselhos” pra parar e pedidos pra não desistir.

Parafraseando a Ana, a gente sabe que não é nada sozinho, mas precisou continuar caminhando mesmo quando faltou companhia.

Por um motivo muito simples: pessoas ficam doentes todos os dias por causa da cultura do assédio – algumas delas, chegam a tentar suicídio.

No assédio sexual, as vítimas são predominantemente mulheres e os agressores são majoritariamente homens.

No assédio moral, vítimas e agressores são mulheres e homens.

E, claro, tudo é ainda mais agressivo contra pobres, negros, LGBTQ+.

Mas o pior não é isso: o pior é o fato de que as agências têm números muito piores que a média nacional, segundo as pesquisas.

Um amigo que trabalha em seguro saúde me perguntou há uns meses:

– O que acontece em agências que há um índice tão acima da média de uso de psicoterapia?

Naquele dia, eu estava cansado demais pra explicar – e falei pra ele ler o report da pesquisa, disponível gratuitamente em http://bit.ly/gp-assedio-report

Diferentemente da maioria das peças brasileiras inscritas em Cannes, essas pessoas adoecendo não são fantasmas.

Elas estão ao redor de sua mesa de trabalho.

Digitando o teclado do laptop.

Deslizando o dedo na tela do celular.

Fingindo que está tudo bem, pra manter o emprego.

E, ainda assim, há líderes em agências que insistem em ignorar o assunto.

Ou em não priorizá-lo – afinal, as agências desses líderes devem ser feitas de parafusos e troféus, e não de gente, só pode ser isso.

Ou ainda mais estúpido: diminuem a importância da pesquisa – como se matar a notícia da AIDS exterminasse o HIV.

A gente sabe que algumas pessoas torcem para que o assunto definhe até morrer.

Mas sabe que a maioria de bem vai lutar para que ele continue muito vivo.

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