Obrigado, Pedro Reiss

Hoje, 25/9/2018, estamos a 51 dias do aniversário de 1 ano do lançamento da pesquisa sobre assédio no mercado de comunicação do Grupo de Planejamento, apresentada pela primeira vez pela Ana Cortat e por mim no dia 15/11/2017.

E, hoje, podemos dizer que duas agências lançaram cartilhas decentes de orientação sobre o assunto – uma das 3 recomendações básicas que deixamos para as agências, já que a pesquisa mostra que, além do baixíssimo conhecimento sobre o tema, um material didático sobre assédio derruba pela metade o índice de assédios frequentes no ambiente de trabalho.

A primeira foi a LiveAD São Paulo, há poucos dias, sob a coordenação da Aline Rossin, VP de Client Services da agência.

E a segunda foi hoje: a Wunderman Brasil, com envolvimento direto do presidente Pedro Reiss numa iniciativa de um grupo de funcionários liderado pela Juliana Laporta Galloro.

Confesso que esta é uma briga com mais frustrações que surpresas positivas com as agências: a omissão e não-priorização por parte dos líderes, a inação dos RHs (muitas vezes justamente por não terem apoio verdadeiro desses líderes), o medo de retaliação por parte das vítimas, o vergonhoso e conveniente abafamento de casos por parte de todos os envolvidos (silêncio que retroalimenta a cultura do assédio), a falta de preparo para lidar com as situações (aliada à total ausência de humildade para procurar ajudas externas).

Mas são movimentos assim – como os da Aline, da Juliana e do Pedro – que enchem nossos coraçõezinhos de esperança e nos fazem acreditar que tudo valeu a pena.

*

Dito isso, eu não posso deixar de destacar aqui que o Pedro Reiss foi além: ele bancou disponibilizar a cartilha aberta ao público, no link abaixo:

https://www.wunderman.com.br/agenciasemassedio

No texto de apresentação, o Pedro se torna o primeiro presidente de agência do Brasil a admitir, publicamente, que se reconheceu assediador no passado – assim como eu faço na abertura de todas as apresentações da pesquisa.

Diz ele:

“A primeira reação ao me perceber assediador foi a paralisia, seguida de uma angústia profunda. Nunca tinha me imaginado nesse lugar e ganhar essa consciência foi horrível. Antes de apresentar a pesquisa sobre assédio em agências de publicidade, o Ken Fujioka e a Ana Cortat já escancararam o assunto, deixando claro que quase todos nós já ocupamos esse lugar de assediador e, na maioria das vezes, sem ter ideia do estrago que estávamos causando. Eu, eles e possivelmente você também.

Aí veio um desejo profundo de mudança e a percepção da complexidade da coisa: o assédio está muito enraizado em comportamentos que muitas vezes são a norma no nosso ambiente de trabalho. Por mais horroroso que seja admitir isso, o assédio virou parte da nossa cultura de trabalho e isso precisamos mudar. Essa mudança – necessária e urgente – é um movimento que depende de muitas partes, e cada um precisa fazer a sua.”

A resolução de todo e qualquer problema exige um primeiro passo: reconhecê-lo.

De preferência, publicamente: fazer isso sozinho, para o próprio espelho, não é suficientemente empático.

E, sem esse primeiro passo, os passos seguintes não virão ou serão pouco legítimos – muito provavelmente acabarão sendo ações para agradar a platéia.

Por isso, quero fazer publicamente o que já fiz no privado: cumprimentar o Pedro Reiss pela coragem, pelo gesto, por ter dado espaço a pessoas que estavam dispostas a fazer algo.

Que venham outros líderes com essa dignidade.

*

P.S.: A cartilha não só está disponível para download, como também livre para ser copiada ou utilizada como referência. Ou seja: se havia alguma desculpa para as agências não terem feito uma cartilha decente em quase 11 meses, agora já não resta nenhuma.

4 comentários

  1. Achei o trabalho incrível.
    Direto, sem firulas, do jeito que tem que ser.
    Parabéns a todos os envolvidos, porém, o link do vídeo Chá e consentimento não está funcionando!
    abs

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