Os guardinhas da esquina

Um grande amigo fez um desabafo muito bem escrito no Facebook sobre o medo que está sentindo a respeito do cenário atual – tanto medo que não conseguiu deixar o post público, temendo pela sua própria família.

Então pedi licença a ele para reproduzi-lo.

Porque reflete bastante o que penso.

E porque, apesar de também estar com medo, achei importante que o texto dele alcançasse mais gente – incluindo aqueles que ainda têm alguma indecisão sobre seu voto no segundo turno.

Segue abaixo: leia com o coração aberto.

#PAZ

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Sou um democrata. Estou totalmente pronto para aceitar, de um ponto de vista econômico e social, Jair Bolsonaro na presidência. Acho uma péssima escolha por motivos técnicos mesmo, mas isso é só minha opinião e uma democracia é feita disso, opiniões diferentes.

Acredito na alternância do poder. FHC deixou o governo no fim de 2002, não há grandes problemas em puxarmos a economia para o lado liberal por alguns anos, até para as pessoas poderem ter base de comparação das diferentes abordagens econômicas. Não acho que Bolsonaro seja a melhor escolha pra implantar isso, mas já passamos desse ponto da discussão. Por motivos de programa de governo eu ficaria triste com Bolsonaro presidente, eu ficaria puto no dia do resultado, mas dias depois a minha vida e a de todo mundo seguiria normalmente, com uma ou outra nova regra econômica.

Também não duvido da boa intenção de Bolsonaro. Acho ele um idiota, mal informado, mas acho que ele sinceramente quer o melhor pro país. Acho que a maneira com que ele pretende melhorar o país (de novo, quando falamos de plano de governo) vai no fim deixar o país pior do que está, economica- e socialmente.

Até aí tudo bem, se a maioria discorda de mim defenderei a maioria.

Meu problema é outro.

O episódio sobre Costa e Silva do podcast Presidente da Semana me deixou mal, fisicamente mal. Eu o ouvi caminhando, indo e voltando do banco aqui perto de casa e até hoje me lembro de onde estava quando ouvi alguns trechos — o audio tem esse poder comigo, de eu me lembrar onde estava quando ouvi um pedaço de um podcast ou audiolivro.

A parte que me deixou realmente mal é a da votação do AI-5, que fechou o congresso, instaurou a censura, chegou a estabelecer até toque de recolher e cassou direitos, inclusive à liberdade. Por exemplo, se você era acusado de “comprometer a segurança nacional” ia pra cadeia sem chance de ser julgado em liberdade, sujeito ao “humor” de quem estivesse cuidando de você na prisão. Por um lado diziam “quem não deve não teme”, enquanto que ao mesmo tempo mandavam prender até quem era minimamente considerado uma ameaça. Pelo sim pelo não. Ajuda a explicar um pouco essa coisa bem brasileira de achar que se uma pessoa tem um processo contra ela só pode ser culpada. Mas isso é assunto pra outro textão.

Pra votar o AI-5, o presidente chamou no dia 13 de dezembro de 1968 uma espécie de Pequeno Conselho, do Game of Thones, pra opinar. Na mesa tinha civil e militar e todos concordaram que se era pra salvar o regime era melhor tirar direitos de todo mundo mesmo. Delfim Neto chegou a dizer que tava era poko, manda mais. Só um dos presentes votou contra, o vice-presidente (civil) Pedro Aleixo. Conta o podcast que na saída da reunião, AI-5 aprovado, chamaram Aleixo no canto para perguntar se ele duvidava das boas intenções do presidente. Aleixo então respondeu algo como:

“Da intenção do presidente não tenho dúvidas. Tenho receios é do guardinha da esquina.”

Então meu problema hoje não é com Bolsonaro, meu problema é com o guardinha da esquina. Ou, dessa vez na história, do bando de gente que já começa a sair do armário. Ou talvez dizer que estão saindo dos bueiros seja mais correto, já que quem vem historicamente se escondendo em armários é quem tem medo de sofrer violência.

Gente que vai achar que como foi eleito um presidente que diz que tem que fuzilar os adversários e que só não estupra uma mulher porque ela não merece… vai achar que tudo bem agredir (literalmente agredir, real oficial, fisicamente) aquele de quem não gosta, aquele que acha errado, na sua própria definição do que é errado. Bolsonaro ainda nem tomou posse e já tem gente fazendo isso.

Você já deve estar pensando que um plano de governo não pode ser responsabilizado pelos atos de alguns malucos, mas quando algum tipo de agressão desse tipo acontece o candidato que diz defender a moral e a ética finge que não é com ele. Exatamente como faziam os presidentes da ditadura — heróis do Bolsonaro — que diziam que as histórias de tortura e morte em cadeias eram fake news, criadas para desestabilizar o governo. Havia um excesso aqui e ali, mas no fim todo mundo merecia mesmo. Tudo pra salvar o país.

Então estou sem dormir direito porque temo pelos meus amigos membros de minorias e pelos meus amigos ativistas políticos, que nunca tiveram uma vida fácil e que já tem a certeza de que vai piorar. Temo também, é claro, por mim e pela minha família, porque criticar o governo vai ser tratado como crime, não oficialmente pelo governo (pelo menos não logo de cara), mas será pela massa de guardinhas da esquina que hoje já desqualificam vozes dissonantes chamando de vagabundo ou puta quem discorda da visão bolsonarista de país.

Não é talvez. Já é hoje, já é real. Os prints deste post são dessa semana.

Então quando falam “vote sem medo”, eu vou ter que pedir desculpas e dizer que vou ficar devendo essa.

Vou votar com medo sim.

PS: Pedro Aleixo, que apoiou não só o golpe de 1964, mas também o de 1930, morreu em março de 1975. Em agosto do mesmo ano seu irmão Alberto, que trabalhava na gráfica do jornal do PCB, morreu por traumas decorrentes da tortura.

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