Shit happens, but don’t be shit

[Essa é pros amigos (e inimigos) publicitários: uma história de ficção em que qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. OU NÃO.]

*

Faltam poucos meses para o festival de Cannes.

A agência está fervilhando, especialmente a criação.

Várias ideias que não resolvem um problema de negócio de verdade.

Faz parte: é Cannes, porra!

Entre tantas, surge uma ideia, digamos, eticamente questionável.

Acontece, ora bolas.

Somos humanos e humanos fazem humanices – conhecidas também como cagadas.

Como a ideia parece ter poder de repercussão, a liderança da agência dá seu aval – seja porque gosta dela, seja porque mantém uma cultura e uma falta de processos que não provocam questionamentos éticos ou morais.

Afinal, parodiando o provérbio popular, “os prêmios justificam os meios”.

Mas a coisa não pára aí: o cliente também aprova a ideia – afinal, ele foi convencido de que a ideia é corajosa.

(A agência é boa em convencer pessoas.)

Enfim, a ideia vai pro ar.

Com pompas de entrevista exclusiva, pra ter mais destaque.

Depois, aparece nos sites do mercado nacional e internacional.

E aí…

Dá merda.

M-E-R-D-A.

Merda das grandes.

Dentro da agência, rola aquele embate entre a turma do “eu avisei” e a turma do “é fácil ser engenheiro de obra pronta”.

Mas eu te garanto: shit happens – especialmente quando a barreira ética é ultrapassada em nome de prêmios.

Daí, o líder máximo da agência, ao invés de matar no peito, faz o que?

Humilha publicamente a pessoa que teve a ideia – aquela mesma ideia que, se ao invés de merda, tivesse dado prêmios, seria louvada pelo mesmo líder em entrevistas para o Meio e Mensagem e o Ad Age.

A partir disso, dá pra prever o que acontece depois: a pessoa que teve a ideia vira bode expiatório, passa mal, perde a confiança em seu trabalho, perde a auto-estima, cai em depressão etcetera etcetera etcetera.

Mas, na agência, nada muda.

Nem na liderança, nem na cultura, nem no processo.

Pelo contrário: ano que vem, o líder provavelmente estará de novo fazendo as pessoas trabalharem madrugadas e fins de semana em projetos que não resolvem problema algum – mas que podem gerar belos videocases.

Lider, por favor: não seja esse líder.

Vá por mim: eu já fiz parte desse tipo de liderança lixo.

Eu provavelmente já tomei decisões lixo por causa de “prêmios”.

E, mesmo quando discordava, provavelmente não gritei alto o suficiente.

Então, eu imploro: não cometa o mesmo erro de gerações passadas.

Cometa novos.

*

P.S.: Líder, antes de jogar a culpa nos liderados por um erro que passou por diversas camadas de aprovação, reflita sobre a cultura que você construiu e manteve na agência: a de que prêmios justificam ideias que não resolvem um problema de verdade.

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