Obrigado, Claudia Penteado

Finalmente alguém do meio publicitário colocando o dedo na ferida: as lideranças das agências continuam agindo como se o problema do assédio no trabalho não existisse.

Não por acaso, foi uma mulher que teve que demonstrar essa coragem — óóóóó, que surpresa, não é mesmo?

As agências continuam sendo lideradas por homens brancos que não sabem pegar um ônibus, mas jogam migalhas para o alto em forma de programas de diversidade e cursinhos para pessoas que não vão contratar — mas que geram matérias nos jornais e participações em painéis de discussão.

É muito blá-blá-blá pra pouca ação concreta.

Enquanto isso, CCOs assediadores continuam dando palestras e pulando de uma agência para outra — já as vítimas permanecem em silêncio, porque sabem que as armas da represália e da retaliação serão acionadas sempre que possível.

Por tudo isso, muito obrigado, Claudia Penteado.

O artigo dela segue abaixo — leia, por favor.

E, se você for líder de agência, chame outros líderes de agências e façam algo, pelamor – nem que seja às noites e aos finais de semana, que é quando os funcionários do baixo escalão costumam se foder.

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ASSÉDIO NAS EMPRESAS — POR QUE CONTINUAMOS COCHICHANDO PELOS CANTOS?

Não basta as empresas implementarem programas de inclusão e criar linhas anônimas de denúncia se não lidam de modo aberto e exemplar com os casos que acontecem

POR CLAUDIA PENTEADO

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Sai, pouco a pouco, do âmbito do discurso e das intenções, o tema da diversidade e da inclusão nas empresas. No mundo da comunicação, onde venho navegando nos últimos 20 anos, nunca foi um tema prioritário. Devo dizer que a área foi pega de calças curtas, quando estudos e levantamentos iluminaram a questão. Isso levou empresas a finalmente olhar para comportamentos e hábitos cristalizados há décadas e a começar, ainda que de leve, a colocar o dedo nas próprias feridas.

Acompanho, por exemplo, a saga do Grupo de Planejamento, desde que levantou pela primeira vez o tema do assédio sexual e moral no ambiente de trabalho das agências de publicidade. Observo curiosa como ainda hoje a questão do assédio segue tabu, varrida para debaixo de tapetes de todos os tipos e tamanhos. É um elefante na sala que todos enxergam, mas fingem não ver, para proteger seus empregos e suas reputações, e porque ele simplesmente não combina com a imagem de criatividade e inovação que envolve o setor.

No ano passado, David Droga, certamente o cara de maior prestígio na indústria da publicidade mundial, teve de dispensar seu CCO, Ted Royer, por assédio. Isso acontece e ganha a imprensa nos Estados Unidos e em países da Europa, mas no Brasil é abafado. Fala-se do ocorrido apenas em listas anônimas na internet e a meia voz, em conversas em que se tem medo de citar nomes e dar detalhes.

O Brasil precisa caminhar muito para reconhecer suas mazelas e essa certamente é uma delas. É cultural e notória nossa falta de reconhecimento de erros do passado – replicados, de formas variadas, no presente – embora adotemos no discurso e em cartas de intenção o compromisso de não seguir errando. Para David Droga (publicitário australiano, fundador e presidente da agência americana Droga5), foi um baque e tanto abrir mão de seu parceiro criativo. Por outro lado, Droga não podia arriscar sua reputação e seu futuro, mantendo por perto alguém acusado de cometer um erro que já não dá mais para varrer para debaixo do tapete.

Nem sempre foi assim, e até mesmo um presidente americano escapou da condenação por erro semelhante no passado, mas os tempos são outros. E reconhecer e lidar com erros de maneira transparente se paga, literalmente: este ano, a Droga 5 foi comprada pelo maior grupo de comunicação da atualidade, a Accenture. E David Droga se mantém no topo da cadeia alimentar das personalidades mais admiradas desse setor.

Não por acaso, os Estados Unidos aparecem em segundo lugar no primeiro índice global de inclusão e diversidade no ambiente de trabalho lançado pela Kantar. Depois de entrevistar mais de 18 mil pessoas em 14 países, foi criado um ranking no qual o Canadá aparece em primeiro lugar, como o país com ambientes de trabalho mais inclusivos – considerando determinantes como gênero, etnia, idade, orientação sexual, saúde e bem estar no trabalho (o mesmo Canadá para onde fogem mulheres, negros e LGBT na série Handmaid’s Tale). Depois de Canadá e EUA, estão no ranking, pela ordem, Alemanha, Itália, Espanha, Holanda, Brasil (na sétima posição), Reino Unido, França, Polônia, Japão, Austrália, Cingapura e México.

O estudo revelou que 19% das pessoas sofreram bullying ou algum tipo de assédio no ambiente de trabalho no ano passado. No caso de pessoas que fazem parte de alguma minoria – étnica, de gênero – o índice sobe para 24%. O estudo também revelou que 80% dos funcionários de empresas no âmbito global testemunharam ou sofreram algum tipo de discriminação – e apenas apenas um terço deles acreditou que poderia denunciar o fato internamente.

Uma curiosidade: as indústrias farmacêutica e da saúde foram consideradas as mais progressistas no quesito inclusão, enquanto as de tecnologia e telecoms ficaram na lanterninha, veja só.

Mas vamos falar de Brasil: estamos em sétimo. Na metade do caminho, digamos assim. Indo mais fundo, temos os maiores índices de bullying e assédio no trabalho, junto com México e Cingapura, enquanto Holanda e Espanha têm os menores. Do total dos entrevistados no Brasil, 67% afirmaram não se sentir confortáveis para reportar comportamentos negativos para a liderança ou gestores de recursos humanos, e 25% afirmaram terem sido assediados ou intimidados nos últimos 12 meses, enquanto 41% das pessoas se sentiram desconfortáveis no local de trabalho.

Temos problemas graves relativos a gênero, etnia, idade e orientação sexual. Empresas precisam ser mais inclusivas, e direcionar oportunidades para as pessoas mais merecedoras. Seguimos arfando, no meio do caminho, como hamsters em rodinhas.

Fica claro onde reside o nosso maior problema, e onde precisamos mergulhar sem demora: reconhecer o elefante na sala, e parar de empurrá-lo para debaixo do tapete. Não basta implementar programas de inclusão, criar linhas anônimas de denúncia, distribuir cartilhas e guias sobre assédio e diversidade, se não se lida com os casos, que ainda acontecem, de maneira aberta e exemplar. Demissões, acordos e dispensas são feitas às escuras, pessoas se constrangem e continuam se calando. Cochichos seguem ecoando pelos corredores, irremediavelmente, tratando assuntos urgentes como “tabu”. A imprensa nem sonha em publicar nada. E a cultura não muda.

Apontar os culpados faz parte, pois demonstra que a gestão das empresas está de fato assumindo sua verdadeira responsabilidade. Responsabilidade não é, necessariamente, culpa – como bem explicou a jornalista Eliane Brum, em sua palestra, no início da semana, no Rio de Janeiro, em que invocou a filósofa Hannah Arendt para falar das diferenças entre os dois conceitos. Punir exemplarmente os nossos culpados e assumir, de fato, responsabilidades, é um enorme e necessário desafio. Segue o jogo.

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Claudia Penteado é jornalista, estuda comunicação, filosofia e literatura, mora no Rio de Janeiro e acredita em capitalismo consciente. É leonina, mãe da Juliana e prefere ler livros em papel.

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Artigo originalmente publicado no site da Época Negócios: https://epocanegocios.globo.com/colunas/Marketplace-ideias-e-inovacao/noticia/2019/09/assedio-nas-empresas-por-que-continuamos-cochichando-pelos-cantos.html

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