Disappointed, but not surprised

Você é publicitárix?

Então senta aí, que vou te contar algo que vivi hoje à noite.

É rapidinho, não vai demorar, não.

Enfim.

Eu fui convidado para um evento do MORE GRLS em parceria com o Spotify.

O tema me era caro, então eu fiz questão de ir, mesmo fora de agências há quase 3 anos: uma discussão sobre novas diretrizes de equidade para o mercado de comunicação, especialmente nas agências.

O formato foi a chamada “dinâmica do aquário”, em que qualquer participante de uma roda maior pode ter fala dentro de uma roda menor com quatro cadeiras, uma sempre vazia.

A maioria esmagadora era de mulheres.

Eu contei meia dúzia de homens.

Havia menos negras do que o necessário, mas ainda bem que elas eram todas vocais.

Vozes diferentes tiveram vez.

Muitos assuntos importantes foram levantados.

Algumas alternativas de soluções.

Nada definitivo, mas foi um ótimo começo de conversa.

No final, fui parabenizar a Laura Florence (não achei a Camila Moletta na hora, então ficam aqui os parabéns, Cami!) pela iniciativa.

— Poxa, Laura, muito obrigado, foi uma honra ter sido um dos poucos homens convidados.

Ela sorriu meio constragida e me respondeu:

— Não foram poucos os homens convidados, Ken. Pelo contrário: devido ao tema, metade dos convidados eram homens, muitos deles CEOs de grandes agências.

Meu cérebro bugou por alguns segundos.

Metade dos convidados eram homens, mas só meia dúzia compareceram.

Logo depois, pensei: “disappointed, but not surprised.”

Meia dúzia de homens, dezenas de mulheres.

Por causa do limite de vagas e do foco em líderes, muitas pessoas ficaram de fora e não puderam ser convidadas.

Mesmo assim, num momento em que os CEOs de agências — 99% homens brancos — enchem o peito pra falar sobre diversidade em eventos e entrevistas, é esse o engajamento deles na vida real com o tema.

Meia dúzia de homens.

Uma vergonha.

Vergonha que só não foi maior porque havia quatro homens CEOs ou presidentes de agência lá: André Passamani (Mutato), Carlão Fonseca (Tribal), Felipe Simi (Soko) e Pedro Reiss (Wunderman Thompson) — obrigado, manos.

Isso diz mais sobre as agências do que qualquer discurso de CEO.

Durma com esse barulho.

*

Em tempo: segundo o Forum Econômico Mundial, se as transformações continuarem acontecendo no ritmo atual, a equidade de gêneros nas empresas vai demorar cerca de 217 anos para chegar.

217 anos.

Mas, se depender dos líderes homens brancos das agências, meu receio é que demore ainda mais.

Só que, se demorarem, talvez o negócio morra antes.

5 comentários

  1. Sensacional, Ken.

    É impressionante a disparidade entre o discurso e a prática da grande maioria dos CEOs da agências no Brasil. Não é a toa que o mercado sofre há anos e ainda mais nessa revolução tecnológica na qual estamos vivendo, mas quem mais sofre nunca é ouvido.

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  2. Ótimo Texto! Pena que não traduz somente o universo das agências de comunicação, este comportamento se estende para outros mercados. Infelizmente esse “Walk The Talk” não funciona mesmo.

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