Nem full time, nem para sempre

Pouca gente sabe, mas antes de ter uma trajetória em comunicação, eu trabalhei por vários anos como programador de computadores — que, hoje, tem o nome pomposo de “developer”.

Pois foi em tecnologia, com cerca de 16 anos de idade, que tive contato, pela primeira vez, com o conceito de “privilégios”.

Você provavelmente não trabalha na área de T.I., mas já ouviu dizer: alguns usuários têm privilégios de administrador e podem fazer qualquer coisa nos servidores da empresa; outros têm muito menos privilégios e não podem sequer instalar aquele joguinho no laptop da firma.

Veja: em tecnologia, se você não tem os mesmos privilégios que outro usuário, não dá pra dizer que vocês têm as mesmas condições e oportunidades para fazerem algo, certo? Pois é.

Mas a coisa não pára por aí: em tecnologia, se você tem menos privilégios, mas é amigo de quem tem mais privilégios, esse amigo pode romper as regras sem que ninguém saiba e permitir que você possa fazer algo que, a princípio, não poderia. Então.

Sabe onde é assim também?

Isso mesmo: na vida.

A compreensão do conceito de privilégios é uma espécie de lente que faz a gente olhar o mundo de outra forma — e, de quebra, derruba o mito da meritocracia.

Mas perceber privilégios, assim como quase tudo na vida, requer, também, predisposição. E isso, infelizmente, depende de cada indivíduo.

Por isso, escrevo este textão.

*

Há pouco mais de 3 anos, até o início do isolamento social, eu vinha alternando entre home office e coworkings.

E por que eu fazia isso?

Simples: porque eu tinha esse privilégio.

Eu tinha o privilégio de escolher onde trabalhar. De administrar meus horários. De contar com uma empregada doméstica para manter a casa em ordem. De ser um homem sem filhos, portanto sem a necessidade de me desdobrar entre dar de comer para uma criança e ajudar na sua lição de casa. E muitos outros privilégios se acumulavam a esses: não sou negro, não sou pobre, não preciso pegar mais de 2 horas de transporte público (quase sempre precário) para chegar ao trabalho.

Sim: eu fazia home office.

Home office acontece quando a gente tem a escolha e o privilégio de ter uma infra-estrutura física e emocional para trabalhar tranquilamente em casa.

Eu já disse em outras oportunidades e vou repetir: o que a maioria das pessoas que passaram a trabalhar em casa está vivendo hoje, em pleno isolamento social provocado por uma pandemia, NÃO é home office.

Repita comigo: NÃO é home office.

A maioria das pessoas não tem escolha, nem a infra-estrutura necessária — física e emocional. A maioria não tem espaço decente, mesa ergonômica, cadeira bacana, computador que aguenta o tranco, internet rápida e estável, backup de internet 4G ilimitada, silêncio na casa, rede de apoio para ajudar com necessidades familiares, dinheiro extra para bancar a inflação dos serviços de delivery.

O que a maioria das pessoas encara, hoje, é uma improvisação doméstica para atender a uma situação emergencial compulsória. Com adicionais cruéis, tais como medo de ser demitida a qualquer momento, pressão para entregar produtividade em meio ao caos, diluição das fronteiras entre vida pessoal e profissional, desrespeito constante dos limites de horários de trabalho.

Isso tudo é bem diferente de home office.

Bem diferente.

Estamos de acordo até aqui?

Vamos então parar de chamar esse cenário de home office?

Ok.

*

Nos últimos dias, testemunhamos algumas pérolas do — já problemático — mercado publicitário.

Numa entrevista em vídeo, um sócio de uma das maiores agências do país afirma que “a partir de agora, vai ser home office full time para sempre”. Sim: esse homem, branco, rico e cheio de privilégios se achou capaz de definir o que é melhor pra todo mundo — sem nenhuma compreensão das diferenças de privilégios que mencionei acima, baseado em sua experiência pessoal e numa curta e improvisada experiência de trabalho remoto.

Em outro vídeo, outra das maiores agências do país romantiza as milhares de conference calls realizadas durante o isolamento social, a “liderança nas notícias” (WTF?), os prêmios conquistados (REALLY?), a produção 24 horas por dia, 7 dias por semana. Curiosamente, não citam quantos funcionários foram dispensados, quantos estão sofrendo ataques de ansiedade, quantos estão em processo de burnout.

Decepcionante? Sim.

Surpreendente? Jamais.

Ao menos nenhuma dessas agências teve seu presidente fazendo piadinha de que a sua agência é “tão competitiva que foi a primeira a ter um funcionário contaminado pelo coronavírus” — sim, isso aconteceu, e foi também de uma das maiores agências do país.

*

Escrevo este textão na esperança de compartilhar algumas premissas sobre privilégios e home office.

Mas também de constranger líderes de agências e evitar mais pérolas desse gênero.

Para esses líderes, deixo aqui este apelo:

— Por favor, ouçam as pessoas menos privilegiadas da agência: a galera que mora longe, que mora apertado, que ganha menos, que carrega o piano, que limpa seus banheiros, que cuida da segurança da agência.

— Por favor, parem de tomar decisões pautadas pelos seus privilégios individuais.

— Por favor, parem de romantizar a precarização do trabalho.

Um beijo no coração.

P.S. Líderes de agências, ouçam o episódio 1 “Home office: mães e periféricos” do podcast “Job pra Ontem” do MORE GRLS. (https://bit.ly/jobpraontem-01) Não traz todas as respostas, mas tem uma abordagem propositiva que já dá uma quentinho no coração.

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