Por que as planilhas anônimas sobre as agências perdem efeito a cada onda?

Uma nova planilha “Como é trabalhar aí? Edição Pandemia” está no ar. De novo, ninguém sabe quem a lançou. E, de novo, ninguém sabe quem está respondendo ao formulário que gera a planilha.

Como era de se esperar (pelo menos pra mim), a nova planilha virou uma versão piorada da edição anterior: com a crise da COVID-19 impactando a maior parte das agências, a insatisfação só aumentou.

Eu não vi e nem verei todas as respostas. Mas já me enviaram algumas que beiram o ridículo. E o pior: pelo menos uma delas é explicitamente racista — portanto, criminosa, mas escondida sob a máscara covarde do anonimato. Desapontado, mas não surpreso, é assim que se diz?

Eu acredito que muitas pessoas que responderam tiveram sua cota de endorfina, dopamina, serotonina ou ocitocina. O mesmo aconteceu com os leitores e as leitoras que sentem prazer em ver o circo pegar fogo. Mas a verdade é que a planilha tem efeitos menores a cada onda.

Eu sei, por exemplo, que muitas lideranças sequer leram as respostas relativas à suas próprias agências já na edição anterior. Dá pra contar nos dedos de uma mão as agências que promoveram sessões abertas com funcionárias e funcionários para discutir os problemas apontados na planilha.

Nesta última edição, a quantidade de lideranças que vão realmente dar atenção à planilha tende a diminuir ainda mais.

Por quê?

Porque o anonimato permite que haja respostas com ofensas pessoais, inverdades e afirmações levianas.

Porque o anonimato faz com que as ofensas pessoais, inverdades e afirmações levianas aumentem a cada onda.

Porque o anonimato faz com que a justiça não possa ser feita (porque se desconhece quem acusa), mas a injustiça tem amplo espaço (pelo mesmo motivo).

Porque o anonimato faz com que a imprensa — especializada ou não — não faça uma cobertura séria, deixando de gerar a pressão necessária para que a pauta ganhe repercussão.

E a planilha vira apenas uma caixa de desabafos e ofensas, sem credibilidade real e que será ignorada pelas pessoas que podem de fato ajudar a promover mudanças concretas.

Eu sempre fui e sempre serei empático com as pessoas que sofrem injustiças e opressões no mercado publicitário. Mas é preciso discutir outras formas de construir pontes de diálogo com as lideranças, pois a caixa de desabafos e ofensas já atingiu seu limite.

Para as lideranças das agências, o recado é um só: falem menos e façam mais sobre diversidade e inclusão. Menos “press releases” e posts nas redes sociais, mais ações e mudanças reais. O engraçado é que, quando é pra falar, não falam. Por exemplo: onde está a satisfação pública das agências para o mercado sobre a evolução (ou não) do tal pacto firmado com o MPT, de inclusão de pessoas negras, mais de um ano depois da assinatura? Quais os números antes e hoje? O que será feito para que a meta mínima seja alcançada?

Para o “baixo clero”, meus 25 centavos, para casos mais sérios de abusos e assédios: se você não confia nos canais oficiais da agência (o que é compreensível, como já comentei em artigo anterior), o procedimento a ser considerado não é uma planilha anônima, mas sim uma denúncia anônima no Ministério Público do Trabalho: https://bit.ly/mpt-denuncie

Você tem mais ideias? Me conte.

P.S.: Soube que surgiu também uma planilha anônima de clientes das agências. Meu raciocínio acima vale igualmente para essa planilha também.

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