Sobre a corajosa denúncia do Flavio Ferri

(Se você não está familiarizado com o caso, leia esta matéria.)

Eu aprendi muitas coisas na pesquisa sobre assédio no mercado publicitário que a Ana Cortat, a Lara Thomazini e eu realizamos em 2017 – tanto nas mais de 1.300 respostas recebidas quanto nas dezenas de conversas que tive com vítimas de assédio em agências (e fora delas).

Mas o aprendizado mais importante foi: o mercado é muito, mas MUITO mais nefasto para as mulheres.

Segundo a pesquisa, elas são as que mais sofrem assédio moral. Elas são as que quase exclusivamente sofrem assédio sexual. Elas têm mais medo de serem julgadas, demitidas e retaliadas se denunciarem um assédio de qualquer natureza. E por aí vai.

(Se você ainda não conhece, o report na íntegra está em http://bit.ly/gp-pesquisa-assedio)

Quem não conhece uma mulher que reclamou de abordagens sexistas ou abusos de cunho sexual e ouviu do RH da agência que “é o jeito dele, mas ele não faz por mal”?

Quem não conhece uma mulher que foi demitida da agência na volta da licença maternidade, ou mesmo durante a licença?

Ou uma mulher que fez um acordo de horário flexível para amamentar o filho recém-nascido, para depois a agência simplesmente ignorar o acordo?

Ou uma mulher que ouviu uma “piada” de que “é melhor contratar homens, porque homens não engravidam”?

Eu não estou inventando esses casos. Eles são reais e recorrentes, por isso parecem tão familiares.

Estou dizendo tudo isso para que a gente não perca de perspectiva que as mulheres sempre sofreram mais e denunciaram mais casos de assédio. Quase nunca foram ouvidas. Quase nunca foram apoiadas.

Não estou tirando o mérito do Flávio Ferri. Muito pelo contrário. Ele teve a coragem de falar, dar nome ao boi, se expor. Já parabenizei ele no privado e publicamente.

Mas, como disse a um amigo meu, ele tinha também os privilégios para fazer isso – o privilégio de ser homem, de ser branco, de ser senior, de ter o apoio de colegas importantes do mercado.

Que bom que o Flavio usou sua coragem e seus privilégios para expor um assediador do qual foi vítima.

Que bom que a R/GA fez o mínimo que se espera de uma agência decente.

Que pena que mais nenhum publicitário homem branco economicamente privilegiado vítima (ou testemunha) de assédio tenha feito o mesmo que o Flavio, pelo menos até agora.

Estou na torcida (e também em campo) para que esse tenha sido só o começo de um movimento maior e mais efetivo contra o assédio.

E na torcida também de que, a partir de agora, a gente dê mais ouvidos e apoio às mulheres (e pessoas negras, LGBTQIA+ etc.) de uma forma que o mercado não deu até então.

Um beijo no coração.

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(Escrevi provocado pela Rafa Ferreira, pela Carla Purcino, pela Ana Cortat, pela Gabriela Rodrigues e pela Ana Mattioni. Obrigado a todas.)

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